Saímos da nossa escola, OSMOPE, na Rua de Costa Cabral, no Porto e, na Praça do Marquês, entrámos na estação do metro. Paragem assinalada: S. Bento.

Boa disposição, pranchetas, lápis de grafite e máquinas fotográficas. Mais um desafio para percorrermos e sentirmos a nossa cidade, desta vez com intenção de levarmos estas nossas leituras e possíveis produções até ao Museu.

Esta cidade pertence-nos, como cidadãos que somos e, de alguma forma, também como protagonistas do seu passado, do presente e, sem dúvida, como inspiradores cúmplices do novo futuro.

Quanto aos museus, são espaços de liberdade de pensamento, criação, conhecimento partilhado e comunicação. Neles, encontramos cruzamentos entre diferentes tempos, entre arte, história e arquitetura, ou seja, cultura e diversidade de expressão. São espaços onde as memórias se intersetam com os olhares e as leituras de quem os sente. 

Percorremos com determinação e sentidos muito abertos a grande rua que nos engoliu à saída do metro.  Alguém disse em tom de brincadeira: “Que rua com uma boca tão grande!!!”. Depois, foi ver, olhar e reparar, tal como Saramago disse um dia sobre como andar por esse mundo. O casario cresceu no nosso olhar, dançámos uma claraboia e falámos do som que ouvimos, quando em círculo fechamos os olhos. E depois...? Depois tudo aconteceu, naquela manhã de céu azul, em que todos ficámos a saber que um rio vivia escondido no empedrado dos passeios que pisámos.

O projeto Cota 1,20 foi premiado no “Architecture into Education awards 2023”, na categoria “Designing for wellbeing & community”, do Thornton Education Trust.

1,20m é a cota média a que está o olhar das crianças que participaram neste projeto

Os Museus são, hoje, e contrariamente aos espaços meramente expositivos do passado, lugares de comunicação, relação, questionamento, criação e transcriação. 

A inclusão das crianças, nos processos de criação de conteúdos e no ambiente expositivo, promove práticas educativas não-formais, potenciando a criatividade e o desenvolvimento do pensamento crítico, favorecendo ainda a construção do capital cultural das crianças, famílias, escolas e comunidades.

Através de estratégias e elementos de mediação utilizadas com as crianças, a proposta da exposição “cota 1,20” promove a acessibilidade aos conteúdos museológicos, permitindo diferentes visões e leituras. A inter-relação entre Museu e Escola provoca o desenvolvimento de projetos e aprendizagens significativas de qualidade para todos os intervenientes. 

O Design, comunicador na sua essência, pela sua pluralidade, inter e multidisciplinaridade, e situando as suas competências entre arte, engenharia e gestão, é um parceiro privilegiado para a mediação cultural que resulta no desenho de artefactos, dispositivos e serviços. 

Com este projeto, refletimos sobre a necessidade de investir na promoção de uma relação precoce das crianças com os espaços urbanos, os lugares, as funções, as ambiências. Segundo uma perspetiva sensível da educação torna-se fundamental a criação de condições para ver, olhar, reparar, sentir, desenhar, criar, experimentar, comunicar, e por fim traduzir e transcriar. Nesse laborioso ofício vão-se construindo pontes educativas, um entramado de dispositivos que vão formando a teia complexa da vida em sociedade, da sua geografia quotidiana ou ocasional.

O ato de caminhar atento supõe uma rotura com os modos quotidianos de mobilidade. Tudo se deve organizar de modo a ter o horizonte desimpedido a 360 graus, no espaço próximo e no longínquo.

A escola só pode existir enquanto elemento desse sistema em permanente construção. Dizer-se que a escola se envolve com a comunidade mais parece uma redundância ou um erro de verbalização da questão. A escola foi desde sempre elemento constituinte de um coletivo. A questão é saber que coletivo é esse e que papéis é que a escola pode desempenhar. Num cenário em que a escola é mero instrumento de inculcação de normas e de reprodução da ordem vigente, a inserção no coletivo faz-se por simples instrumentalização, por amestração. Ao contrário, se a escola desenvolve a sua capacidade de desvendar o mundo, de o interrogar, de se envolver, então essa atitude crítica e reflexiva será um poderoso instrumento de formação de uma cidadania ativa, de democraticidade, de potencial de transformação do mundo.

O espaço museológico, como espaço público de comunicação artística, será assim um lugar privilegiado onde a voz das crianças poderá estar presente e potenciar novos discursos e perspectivas. 

Por isso, socorremo-nos de uma metodologia que transporta a vivência do espaço para a sua representação. Não é a mesma cartografia que existe nos mapas convencionais, nos sistemas GPS. Trata-se de praticar ferramentas que consolidem experiências e conhecimentos diretamente elaborados pelas crianças nas suas deambulações urbanas por trajetos pré-definidos, mas suficientemente abertos para poderem conter o inesperado, a curiosidade, a surpresa de encontrar uma coisa quando se procurava outra. 

Por fim, diríamos que será importante permitir à criança «descodificar/decifrar» o ambiente urbano em que vive, implicando-a em projetos de investigação/ação sobre a descoberta da nova condição urbana e do seu leque de ofertas, diminuindo a «opacidade» da cidade (entenda-se, da sociedade e do seu território), construindo práticas educativas que promovam a riqueza cultural e as formas de produção artística e que a partir daí, tirem partido das vantagens que os Museus e outras instituições culturais podem oferecer. 

Rita Brandão e Sílvia Berény

Fomos convidados a escrever para o livro “Urbano palco: estudos de performances urbanas III”, com coordenação de Vânia Oliveira, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás.

"Cota 1,20: O envolvimento do Design com as crianças na criação de um projeto expositivo sobre a cidade que habitam"